Resenha: Tash e Tolstoi - Kathryn Ormsbee

julho 24, 2017 / Redação SOODA /

Obra pioneira no Brasil a tratar sobre assexualidade




Assim como a tese de doutorado da pedagoga Elizabete Baptista de Oliveira inicia, contando a história sobre como o desinteresse sexual é visto antes do século XXI, esse que vos fala acreditava que essa forma de relacionamento era um distúrbio. Porém, após uma trajetória de estudos e pesquisas sobre o assunto passou-se a considerar a assexualidade como um espectro da diversidade sexual. Porém, para que nós cidadãos desse imenso mundo possamos compreender, é necessário sair um pouco da zona de conforto, do nosso status quo da "ignorância" e a partir dessa compreensão de mundo, respeitar a felicidade do próximo.

O livro Tash e Tolstoi me ajudou muito nesse quesito, provocou o desconforto necessário para que eu buscasse mais sobre o assunto. Hoje, estou longe de ser um expert sobre o tema, porém estou cada vez mais próximo do respeito a essas pessoas. Assim espero, pelo menos.

A história desse livro debruça-se sobre a vida de Tash, uma jovem de 16 anos que está, no segundo ano do ensino médio do colégio. Ela tem um canal no Youtube e junto com um grupo de amigos está fazendo uma websérie que é adaptação moderna de Anna Kariênina. Inicialmente a série não fazia bastante sucesso. Mas depois de um Youtuber famoso indicar o canal. A Websérie viraliza, ganhando um novo status. Com muitos fãs, gif´s, ship, e também bastante haters.

Agora Tash precisa enfrentar essa nova vida de subcelebridade, somado aos seus problemas adolescentes, do tipo, que faculdade escolher, amizades, prioridades e namoro (Ops...). Na verdade, sobre isso ainda existe uma diferença de Tash sobre 99% da população mundial. Ela é assexual.



UM POUCO SOBRE A ASSEXUALIDADE

Por mais difícil que possa parecer, a assexualidade é mais próximo de orientação sexual, do que distúrbio. Ela é caracterizada pelo desinteresse sexual sobre uma pessoa. Porém, não deve ser confundido com um trauma, ou experiência sexual ruim que gerou essa circunstância. Tente imaginar como surgiu o interesse sexual que você possui, seja ela hetero ou homoafetivo. Conseguiu? Para o assexual é a mesma coisa, porém no lugar de surgir o interesse, surge o desinteresse. Certo?

Então, foi assim que aconteceu com Tash, ela nunca teve interesse sexual sobre os garotos, apesar de que no caso dela existe um interesse heteromantico. Inclusive, o dela é Thom, um outro youtuber que já é mais famoso, o qual ela adquiriu uma relação afetiva muito forte, mas que não irá evoluir sexualmente. A questão é que ela não sabe como contar isso a ele. Afinal, como falar para alguém que você gosta, especialmente quando entra-se na idade sexual ativa. "Oi, eu gosto de você, mas não quero fazer sexo, não tenho interesse em relações sexuais". Parece simples, mas não é. É como se você não gostasse de carne de porco, e mesmo assim as pessoas obrigassem você a comer, porque é um padrão de determinada sociedade.

Vale ressaltar que cada caso é um caso. A autora colocou no livro uma personagem que é assexual heteromantica, porém existem casos que a pessoa se relaciona afetivamente com um parceiro do mesmo sexo, ou dos dois sexos, ou simplesmente não tem qualquer tipo de interesse sexual. Você pode ver com mais detalhes sobre esse assunto, nessa reportagem especial feito pelo site UOL, do qual eu gostei bastante e tomei como referência para compreender mais sobre o assunto para escrever essa resenha.



DRAMATICIDADE NA VIDA É POUCO

Como disse anteriormente Tash tem muitos problemas que a ronda, e nem sempre ela sabe lidar da melhor forma possível (me diga qual adolescente que sabe lidar bem com 100% dos problemas?). Alias, me identifiquei bastante com ela, pois ela é uma pessoa totalmente focada em determinadas questões, sendo até bem metódica sobre alguns aspectos. Porém, em outras questões ela se vê pisando em ovos, com medo de que eles quebrem. E tenha certeza, eles vão quebrar.

Por falar em quebrar, a parte negativa do livro paira justamente sobre isso. A autora arriscou demais. E não digo sobre a questão da assexualidade, que eu acho que ela lidou muito bem, mas acho que ela acabou enchendo o livro de histórias paralelas carregadas de drama. Ficou parecendo novela mexicana: Só desgraça. E isso acabou prejudicando o foco da autora sobre alguns aspectos que ela propôs a abordar. Eu acredito que para criar o laço de afetividade dela sobre as outras pessoas (ou algumas vezes, a falta dele), ela não precisava jogar o maior problema de todos, poderia ter colocado outros menores que teria a mesma função para a história e não ofuscaria outras questões.

Vale ressaltar, que não estou dizendo que isso torna a história mais ou menos crível. Não, tenho certeza que as vezes o peso dos problemas são exatamente os que foram apresentados. O que estou dizendo, é que na seleção desses problemas, ela poderia ter arriscado outros pontos, até porque ela está trabalhando com temas novos, que na minha opinião precisavam um pouco mais de espaço nessa história.



SOBRE A VIDA DE PRODUTORES DE CONTEÚDO NA INTERNET

Com certeza o maior acerto dessa história, foi essa temática. Depois fui pesquisar mais sobre a autora e vi que esse é um assunto que ela domina. Então, ela acabou escrevendo bem sobre essa temática. Desde nossos (falo nosso, como produtor de conteúdo também) anseios pelo reconhecimento do trabalho que produzimos, o desenvolvimento, problemas que vão aparecendo, os famosos "haters". E questões sobre a comunidade que são bem interessante que outras pessoas conheçam. Até, para que blogueiros e youtubers não sejam vistos apenas como uma vida fácil e de glamour, como alguns pontuam. E sim como um trabalho, no qual é necessário muito esforço para levar ao consumidor final, no caso vocês o melhor de nós, de nossas pesquisas. De levar a informação e o entretenimento de qualidade.

POUCO TOLSTOI E MUITO LEO

Liev Tolstoi é o maior nome da literatura russa conhecida até hoje. Nascido antes da metade do século XIX, o autor perpassou por importantes momentos históricos da Russia. Adepto do chamado anarquismo cristão, o autor acreditava fortemente na revolução moral, sem violência. Suas maiores obras são Guerra e Paz e Anna Kariênina. Quando a gente vê o nome dele no titulo, imagina uma grande homenagem ao autor suplantada na obra. Porém, ao ler, o que mais a gente sente, é como se fosse algo em nível mais simplório.

É notório que Tash gostava muito do autor Tolstoi, tanto que fez uma webserie baseada em um dos romances do autor. Ao longo da história, a gente conhece um pouco mais da vida e obra dele, além da história de Anna Kariênnia em si. Porém, confesso que para uma obra com o titulo "Tash e Tolstoi" eu esperava mais sobre ele, algo que fosse significativo para a história, único. A relação dele com a história poderia ser trocada por outro grande autor da literatura mundial sem grandes problemas. Se colocassem "Tash e Victor Hugo", ou "Tash e Jorge Armado", a história teria o mesmo sentido.

Ao fim do livro, capturei muito mais aspectos positivos do que negativos, o desconforto que me causou sobre a assexualidade, que fez eu buscar bem mais sobre o assunto e também a importância que tem os atuais produtores de conteúdo para a informação e entretenimento. É um livro necessário para muito desses aspectos, porém ele não deve ser único. Se quiser saber mais sobre o tema. Busque, pois esse foi apenas primeiro livro de ficção sobre assexualidade no Brasil, uma fresta que abrimos sobre a porta que precisa ser escancarada.


Tash e Tolstoi (Tash Hearts Tolstoi)
Autora: Kathryn Ormsbee
Editora: Companhia das Letras (Selo Seguinte)
Ano: 2017
Skoob: 4 Estrelas / Goodreads: 4,17 Estrelas
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3 Estrelas
Natasha Zelenka é apaixonada por filmes antigos, livros clássicos e pelo escritor russo Liev Tolstói. Tanto que Famílias Infelizes, a websérie que a garota produz no YouTube com Jack, sua melhor amiga, é uma adaptação moderna de Anna Kariênina. Quando o canal viraliza da noite para o dia, a súbita fama rende milhares de seguidores e, para surpresa de todos, uma indicação à Tuba Dourada, o Oscar das webséries. Esse evento é a grande chance de Tash conhecer pessoalmente Thom, um youtuber de quem sempre foi a fim. Agora, só falta criar coragem para contar a ele que é uma assexual romântica ou seja, ela se interessa romanticamente por garotos, mas não sente atração sexual por eles. O que Tash mais gostaria de saber é- o que Tolstói faria?
Autora: Kathryn Ormsbee nasceu em Kentucky nos Estados Unidos, e depois de ter vivido em vários lugares e ensinado inglês para crianças. Kathryn começou a escrever para o público infanto juvenil sob o pseudônimo de K. E. Ormsbee, e depois para o público YA com o seu nome. A Editora Seguinte trouxe o seu livro Tash e Tolstoi para o Brasil a apenas 2 meses depois do lançamento no exterior.

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