Resenha: Apenas uma Garota - Meredith Russo

julho 26, 2017 / Redação SOODA /

Uma protagonista trans escrita por uma mulher trans. Isso é representatividade




Você se considera uma pessoa feliz do jeito que é? Possivelmente, você dirá que na maioria das vezes sim, Ou talvez diga que não. Mas, o que impede o estado de felicidade da sua alma? fatores internos ou externos? é ausência ou excesso? Certo, talvez iniciar a resenha com um ar muito filosófico não seja ideal (hehehehe). Mas vamos lá. A felicidade é um estado que depende de muitos fatores sociais e individuais, não é verdade? É algo complexo e em muitos casos difícil de encontrar o fiel da balança que possibilite um consenso, para você simplesmente dizer em um nível genuíno: "Eu sou feliz".

Iniciei com essa conversa de felicidade para mostrar o quão é difícil alcança-la, e que por vezes nossos fatores sociais, nossos preconceitos, nossa falta de entendimento sobre determinada questão acaba corroborando para a felicidade do próximo. E um desses casos é a questão de gênero. Muitos de nós não compreendemos que 5% (estimativas) da população mundial, o que seria cerca de 10 milhões de pessoas, somente no Brasil, não possuem o gênero, o qual foram destinados biologicamente. É como se estivessem a vida inteira com uma roupa que não lhe cabe bem. E como os outros 95% podem ajudar? Ouvindo, compreendendo, respeitando.

Apenas uma Garota, da autora Meredith Russo é uma ficção que tem esse objetivo. Primeiramente, ouvir. Sim, pois nessa história conheceremos a vida de Amanda Hardy, pelo lócus de uma autora trans, que possui a vivência necessária para nos transpassar um pouco da sua alma. Depois, compreender, pois, os relatos aqui apresentados apesar de serem ficção, estão próximos a realidade de uma pessoa trans. Ou seja, é possível a gente tentar entender como funciona a mente de uma pessoa que não possui o mesmo gênero que seu corpo. E por fim, respeitar, afinal de contas, o bom de uma história de ficção é isso. A experiência de se colocar no lugar do outro durante a história, e depois de termina-lá fazer nossas reflexões a fim de respeitar a experiência do próximo, ajudando-o, finalmente, a encontrar a sua felicidade.



A obra traz a vida da adolescente Amanda Hardy, que agora está vivendo com o pai na cidade de Lambertiville, uma cidade fictícia em algum lugar do Sul do Estados Unidos, depois de ter se mudado de Atlanta, devido a alguns acontecimentos que a fizeram ir parar no hospital. Agora, com uma nova casa, uma nova vida, ela pretende deixar o passado para trás, porém tem muitas medos do passado que andam com ela e que a impedem de viver plenamente, apesar de que para os moradores locais, ela é apenas uma garota comum, e linda. De acordo com todos os meninos da escola, ela é muito bonita.

Um desses jovens é Grant, que se aproxima dela, porque um garanhão da escola pediu para ele "fazer os papos" (ainda usam esse termo nos dias de hoje? hehehehe). Mas aos poucos ele percebe uma forte atração por ela. Porém, Amanda tem medo de se entregar, de contar a verdade, de ser feliz completa. A sociedade permite?

Aos poucos, especialmente nas páginas cinza que indicam flashbacks no enredo, vamos conhecendo mais sobre o passado de Amanda, detalhes desde como ela se identificou como gay, e depois sua mudança para compreender que não estava-se tratando de orientação sexual, ou seja ela não era gay, o que de fato, ela não se sentia assim. Ela foi percebendo aos poucos sobre a questão de identidade de gênero, Amanda era na verdade, uma mulher trans.



SOBRE ORIENTAÇÃO SEXUAL E IDENTIFICAÇÃO DE GÊNERO

Para muitos esse tema é complexo e difícil de entender. Mas vamos tentar ser um pouco sucinto e mais claro possível, primeiramente observe o gráfico abaixo:



Nesse gráfico é possível ver quatro categorias. A primeira delas e mais fácil de compreender, pois já está difundido em nossos estudos sobre o assunto e é o sexo biológico, no qual somos homens, mulheres e em alguns casos intersex.

Certo, Quando em nossa mente, nos sentimos como o sexo que nascemos, somos chamados de cisgêneros, ou apenas cis. Porém, em nossa cabeça (e não é uma doença) as vezes acontece (5% da população mundial) que não nos identificamos com o sexo de nascimento. E isso não tem haver com atração sexual. Nesses casos, essas pessoas são chamadas de Transgêneros, no qual podem ser mulheres trans (quando biologicamente nasce homem e mentalmente sente-se mulher), e homem trans (quando biologicamente nasce mulher e mentalmente sente-se homem). Existe também o gênero fluído, mas não vamos entrar no mérito nessa resenha.

Além disso, como se sabe, o ser humano é um ser que naturalmente sexual e claro, na maioria dos casos, precisamos de um parceiro para atender essa necessidade fisiológica. Esse é o campo da orientação sexual. Quando o ser humanos sentem atração sexual pelo sexo oposto (seja ele cis ou trans), então considera-se essa pessoa, heterosexual. Porém, quando os seres humanos sentem atração sexual por parceiro do mesmo sexo (cis ou trans), são chamados homosexuais. Ainda existem os bisexuais (atração pelos dois sexos) e aqueles que não sentem nenhum tipo de atração que são os assexuais (falamos um pouquinho sobre isso na resenha de Tash e Tolstoi).

Claro, ainda existem muitas nuances sobre esse assunto, e para isso vocês pode consultar, uma cartilha super bacana elaborada pelo Governo do Estado do Pará.

Mas o fato é, que muitas dessas nuances em muitos casos confundem as nossas cabeças e talvez por medo venha o preconceito que causa a falta de empatia e imbrica em atrapalhar a felicidade dessas pessoas. Afinal de contas, quem se relacionar com eles possuem que orientação sexual? porque é tão difícil entender a diferença entre orientação sexual e identidade de gênero? Como essas pessoas se sentem?

E sobre isso, essa história consegue nos imergir muito bem para compreender esses detalhes. E o grande ponto chave da questão seja "a ignorância" (passiva ou ativa), pois ela gera o medo, a repulsa, o preconceito, e que leva muitas pessoas trans a morte. E logo compreendemos o medo de Amanda Hardy, e também de sua família.



A HISTÓRIA AVANÇA

Continuando a história, percebe-se o relacionamento de Amanda com Grant avançando, apesar de seus medos. Enquanto isso, ela não sabe como contar a ele, ou qualquer pessoa da cidade sobre a sua condição de pessoa trans. E ela se sentira muito culpada por causa disso.

Um dos maiores questionamentos de algumas pessoas sobre essa história é como o romance se desenvolve de forma "clichê", o qual eu discordo fortemente, afinal de contas, quantas vezes você já viu por aí, um relacionamento de uma pessoa trans? Bem poucos, então sinceramente, essa história pode ser tudo, menos clichê.

Agora em termos de narrativa, não iremos encontrar nenhuma invenção da literatura por aqui. A história é simples para o que foi proposta e a carga está mais no enredo, do que da escrita em si. Nesse caso, as palavras servem mais como uma ferramenta para os fins, diferente de algumas situações, em que elas são participe da história.

É quase impossível você chegar ao fim dessa história sem realmente considerar que a pessoa trans exige respeito, e não quer mais do que apenas a felicidade dela. E se isso aconteceu com você, então a autora conseguiu te levar parte do coração dela para as suas mãos e assim mais um passo para fora dessa nossa "ignorância coletiva" sobre o tema foi dado.



PS. Essa resenha foi escrito por uma pessoa Cis Gay.


Apenas uma Garota (If I Was a Girl)
Editora: Editora Intrínseca
Autora: Meredith Russo
Ano: 2017
Skoob: 4,3 Estrelas/ Goodreads: 4,03 Estrelas
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4 Estrelas
Prestes a entrar na vida adulta, Amanda Hardy acabou de mudar de cidade, mas a verdadeira mudança de sua vida vai ser encarar algo muito mais importante: a afirmação de sua identidade. Tudo que ela mais quer é viver como qualquer outra garota. E, embora acredite firmemente que toda mudança traz a promessa de um recomeço, ainda não se sente livre para criar laços afetivos. Até que ela conhece Grant, um garoto diferente de todos os outros. Ela não consegue evitar: aos poucos, vai permitindo que Grant entre em sua vida. Quanto mais eles convivem, mais ela se sente impelida a se abrir e revelar seu passado, mas ao mesmo tempo tem muito medo do que pode acontecer se ele souber toda a verdade. Porque o segredo que Amanda esconde é que ela era um menino. Em seu romance de estreia, Meredith Russo retrata o processo de transição de uma adolescente transexual, parcialmente inspirada em suas próprias experiências. Enquanto traz à tona questões difíceis como dilemas existenciais, preconceito e bullying, o livro também fala de forma esperançosa e leve sobre amizade, descobertas e autoaceitação.
Autora: Meredith Russo nasceu no sul dos Estados Unidos e após dezenas de anos, em 2013 ela conseguiu viver com a sua verdadeira identidade de gênero. Apenas uma Garota é o seu primeiro romance.

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