Resenha: Ninguém Nasce Herói - Eric Novello

junho 23, 2017 / Francisco Soares Chagas Neto /

No contexto de um Brasil fundamentalista, a história de Eric Novello dá a esperança que todos precisam para continuar vivos




A partir de hoje, depois de um golpe articulado pelas classes conservadoras brasileira, o novo presidente do país será o deputado Silas Malafaia.



A espinha gelou, não foi? Mas calma, apesar da gente estar vivendo em uma época delicada em nosso país, os fundamentalistas não tomaram o poder, pelo menos não ainda.

Porém, Eric Novello criou um futuro que nós esperamos muito que seja distópico, onde os fundamentalistas tomaram o poder e instauraram uma ditadura. Nessa história, conhecemos Chuvisco e seus amigos, jovens que procuram fazer sua parte para lutar frente a essa ditadura, iniciando de maneira simples: Entregando livros ao redor da Praça Roosevelt em São Paulo.

Porém, aos poucos eles vão percebendo que precisam ter mais do que apenas uma participação em todo esse processo, devem se tornar protagonistas da resistência se quiserem ver o Brasil livre dessa ditadura. Eles terão que ser tornar heróis para salvar a pátria verde e amarela. Nem que seja de vez em quando. Assim é "Ninguém Nasce Herói".



Mas como seria esse país fundamentalista?

Primeiro é importante considerar de onde veio a ideia de Novello. De acordo com o autor, em uma carta que veio acompanhada com a prova de livro, a história surgiu a partir dos momentos intensos que estávamos vivendo nesses últimos dois anos, um clima de ódio que tem se instaurado. Basta ver, comentários em páginas de portais de noticias no facebook, onde pessoas em prol de "manifestar sua opinião", colocam para fora todo o ódio sentido por determinada minoria.



Enfim, esse ódio congregou para que um fundamentalista assumisse o poder, e logo criasse um estado de repressão com todos aqueles que não estavam de acordo com as ideias do ditador. A cada inicio de capitulo, Novello faz uma reflexão, que mais parece com a nossa realidade, e não com a ficção criada por ele. É como se o Brasil estivesse entrando em uma distopia, assim como a história de "Submissão" escrita pelo francês Michel Houellebecq (Resenha aqui)

O Brasil começou a se tornar um país fundamentalista muito antes do Escolhido se candidatar a presidente. Quando ele era apenas um deputado bagunçando a Comissão de Direitos Humanos: "Uma hora esse cara desaparece". Quando ele assumiu a presidência da Câmara dos Deputados, todo mundo falou: "Exposto dessa maneira, logo ele é investigado e desaparece". (...) E assim, servindo aos propósitos daqueles que financiavam, ele se tornou presidente" (p. 336 - Prova do livro, passível de mudança).


Nesse estado fundamentalista, livros foram proibidos, grupos de extermínios, como a Guarda Branca, foram criados e o ódio se perpetuou, a tal ponto que crimes contra as minorias eram logo esquecidos.

E nesse Brasil, Chuvisco e seus amigos tentavam fazer a diferença. Esse grupo é uma espécie de "Friends" revolucionários. Divertidos, alegres, diversos. Não existe outra definição para eles. É possível ver personagem gay, bissexual, heterossexual, trans, negra e também religiosa. Eles se completavam, eram mais que amigos, eles se tratavam como irmãos em uma grande família.

Ao longo do livro a situação começa a se complicar, especialmente quando Chuvisco subindo pela Augusta em um dia qualquer, se depara com uma cena que chocaria qualquer pessoa (ou não). Uma pessoa estava apanhando muito dos milicianos da Guarda Branca. Ele, vendo aquela situação cruel e apesar de ser bem safo, sofre danos, e vai parar no hospital todo quebrado. Vale ressaltar, que No momento que ele tenta defender o jovem que estava apanhando ele teve um surto, no qual ele se achava um super-herói. O seu analista denominou isso de "Catarse Criativa". Isso porque, toda vez que Chuvisco se sente vulnerável, ele tem essas alucinações.



A partir da saída de Chuvisco do Hospital, vemos ele e seus amigos cada vez mais próximos. Alguns se pegam, outros trocam farpas, saem juntos, enfim, é um "grupão de amigos da porra". E se desentendimentos acontecem, e vai acontecer, eles dão sempre um jeito de conversarem, colocando tudo em pratos limpos e a amizade se fortalece.

Em meio a tanto ódio, o Governo do "Escolhido" (palavra propriamente escolhida) criou um pacto de convivência, para que as "minorias" calem a boca por uns tempos, porém, existe muita desconfiança sobre essa regra. Primeiro porque a Guarda Branca continua atacando e segundo que fundamentalistas tem objetivos bem traçados no sentido de querer acabar com as minorias. Porém, nesse processo, os grupos sociais marginalizados começaram a se agrupar, pronts para fazer um grande protesto. Aí, Ninguém sabe o que pode acontecer.

Eric Novello conseguiu trazer muito bem elementos de nossa realidade para essa história, de criar um clima que deixa em dúvida o que é real e ficção. Até porque muitos relatos apresentados conseguimos rapidamente buscar em nossas referências sobre determinadas situações. Claro, por vezes exacerbada, tipico de uma distopia, porém sem deixar o seu aspecto de verosimilhança.

Além disso, o autor conseguiu, por meio do grupo de amigos dá um tom um pouco menos cruel a história, criando situações de extrema empatia com vários personagens. Alias, confesso a vocês que vi um pouco de Pedro em mim (sem a parte da beleza, hehehe), mas a sua forma decidida e de articular as situações e sempre colocar os amigos em primeiro plano (no meu caso, namorado também). Enfim, é difícil você sair dessa história sem se apegar com um dos amigos de Chuvisco (ou o próprio).

Passando da página 200, quando os alicerces da história já foram criados é difícil você não querer ler numa tacada só. Os acontecimentos vão se tornando cada vez mais grandiosos até o grande clímax da história. Alias, uma coisa que eu gostei bastante aqui, foi o final, no qual o autor poderia facilmente ter terminado antes e feito outros livros. Mas graças a alguém superior, ele não entrou na síndrome da trilogia e encerrou na medida, onde 2/3 do copo é bonito, e 1/3 é dolorido. O que seria óbvio já que estamos falando de uma ditadura fundamentalista.



Jovens e adultos esse livro é especialmente para vocês, para as reflexões sobre o Brasil, sobre os caminhos que estamos seguindo e o cuidados que devemos ter para não instaurar uma outra ditadura em nosso país.

Ninguém Nasce Herói deixa uma semente em nossos corações sobre como combater o ódio. as escolhas? Quem irá fazer somos nós. Aí vai de cada um, se juntar a "estupidez humana" ou a "resistência" de um país que está a um passo de seguir esse caminho. Fundamentalista e retrogrado.

Observação: Nessa resenha não foram observados aspectos que dizem respeito a diagramação, erros de português ou parágrafos truncados, visto que essa é uma prova encaminhado pela Editora. Ou seja, ainda não é o material que vocês terão em mãos. Dessa forma, o foco foi no enredo, e personagens, no qual posso afirmar categoricamente que esse livro merece 5 estrelas.


Ninguém Nasce Herói
Autor: Eric Novello
Editora: Seguinte (Companhia das Letras)
Ano: 2017 (Previsão de Lançamento - 15/07)
Skoob: 5 Estrelas / Goodreads: Sem avaliação
Compre Aqui (Pré-venda ainda não disponível)
5 Estrelas
Num futuro em que o Brasil é liderado por um fundamentalista religioso, o Escolhido, o simples ato de distribuir livros na rua é visto como rebeldia. Esse foi o jeito que Chuvisco encontrou para resistir e tentar mudar a sua realidade, um pouquinho que seja: ele e os amigos entregam exemplares proibidos pelo governo a quem passa pela praça Roosevelt, no centro de São Paulo, sempre atentos para o caso de algum policial aparecer.
Outro perigo que precisam enfrentar enquanto tentam viver sua juventude são as milícias urbanas, como a Guarda Branca: seus integrantes perseguem diversas minorias, incentivados pelo governo. É esse grupo que Chuvisco encontra espancando um garoto nos arredores da rua Augusta. A situação obriga o jovem a agir como um verdadeiro super-herói para tentar ajudá-lo — e esse é só o começo. Aos poucos, Chuvisco percebe que terá de fazer mais do que apenas distribuir livros se quiser mudar seu futuro e o do país.
Autor: Eric Novello é escritor, tradutor, roteirista com formação no Instituto Brasileiro de Audiovisual. Nasceu no Rio de Janeiro em 1978 e mora em São Paulo. É autor de Exorcismos, amores e uma dose de blues, A Sombra do Sol, Neon Azul e Histórias da Noite Carioca.

Recomendado Para Você

0 comentários

Comente com o Facebook

Instagram