Resenha: Horizonte Vertical - Ana Beatriz Barbosa Silva e Andréa Duarte

junho 03, 2017 / Clara Giane /

Com mensagens piegas de sabedoria, reflexão e autoconhecimento, Horizonte Vertical mais parece um livro de autoajuda




Ah, os anos 80. Década das ombreiras, permanentes e clipes da MTV. A década perdida, tanto para o Brasil, quanto para a grade de desenhos em uma época pré-renascença da animação. A Disney ia mal das pernas, lançando longas esquecíveis, e a programação infantil estava repleta de animações praticamente feitas para vender linhas de brinquedos licenciados (em que se pese o tão conhecido He-Man pela Mattel, Jem e as Hologramas e Transformers, pela Hasbro), ou versões animadas de alguma franquia famosa dos cinemas. O governo Raegan, e sua guerra contra as drogas, levaram a campanha “Just Say No” para as séries televisivas da época (principalmente sitcoms), popularizando que o TV Tropes (uma espécie de catálogo dos clichês da mídia) chama de “Very Special Episode”. Muitos de vocês conhecem a situação: aquele episódio cuja história consistia em um dos personagens se metendo ou sofrendo com alguma coisa que não devia (como bulimia, sexo desprotegido, álcool ou drogas, mas principalmente drogas) e se redimindo no final com uma grande lição de moral, tanto para ele, como para a audiência (e, não raro, os personagens quebrariam a quarta parede e falariam diretamente com os espectadores sobre os malefícios de [insira a coisa polêmica do dia aqui]). Isso porque não estou mencionando programas com objetivos essencialmente moralizantes, como Capitão Planeta e sua proposta ambientalista.

Uma extensão de todo esse moralismo oitentista é o resgate ao misticismo e ao ocultismo “exótico”, que, como bem sabemos, flerta de tempos em tempos com o ocidente: aquela necessidade de autoconhecimento, expansão espiritual, projeção astral, chame do que quiser. Somos chamados a uma nova era de transformações em que todas as energias serão uma só, e outras frases prontas. Nem mesmo as HQs fugiram disso na época, e aqui cito como exemplo magnânimo a graphic novel Doctor Strange: Into Shamballa, de 1986 – recomendo que pesquisem sobre ela e brinquem de jogo dos sete erros com o objeto desta resenha. Spoiler (só que não): a temática e a mensagem de ambos são praticamente iguais.

Mas está ainda é uma resenha sobre Horizonte Vertical, não é mesmo?

Há um motivo para que eu tenha feito toda essa introdução sobre anos 80, lições de moral e misticismo. Embora grande parte do livro se passe em um futuro próximo (mais precisamente o ano de 2028, fora os flashbacks), Horizonte Vertical é decididamente um fruto tardio da década, com um ar “New Age” que beira autoajuda. A começar pelo enredo: o eixo de toda a trama é a Serra do Roncador, no Mato Grosso, para onde o explorador britânico Peter Hewllet Foley viajou, em 1925, em busca de uma cidade perdida supostamente soterrada por aquelas bandas, que seria a chave para os mais diversos mistérios da espécie humana. Munido apenas do manuscrito 512 como evidência (que, de fato, existe, e é mantido no acervo da Biblioteca Nacional), o coronel desaparece sem deixar rastros. Anos depois, observamos a influência mística do lugar sobre três mulheres nascidas em Barra do Garças, vilarejo localizado na Serra: a índia bororo Ana, sua falecida filha Luzia, e Sophia, a protagonista da história – neta de Ana e filha de Luzia.



Trazida muito jovem para junto do homem branco, Ana engravida de Luzia após sucessivas tentativas. Desde tenra idade, a garota se destaca: além de seus cabelos loiros e olhos azuis não guardarem semelhança alguma com os pais (o que levanta comentários maldosos sobre a paternidade da menina, como era de se esperar), Luzia tem o costume de fugir, durante a noite, para as cachoeiras do lugar, onde recebe vozes de outro plano astral. Já adulta, trabalhando como enfermeira no hospital da localidade, Luzia atenua as dores dos pacientes com seus poderes de cura; casa-se com o médico Carlos Roberto e dá a luz Sophia no ano 2000 (sabe aquelas histórias de fim do mundo e novo milênio?), falecendo no processo. A menina herda as habilidades espirituais da mãe, de quem descobre ter uma importante missão que decidirá os rumos do planeta. O contato com a avó estimula que essas tendências venham à baila, embora o pai, homem da ciência, desconverse e desaprove qualquer influência “mágica” na criação da filha. A ligação de Sophia com Barra do Garças se rompe abruptamente durante a adolescência, após um acidente que a obriga a deixar o lugar. A segunda parte da trama, então, centra-se Sophia, já uma respeitável médica de 28 anos, redescobrindo as verdades místicas de seu passado, sua ligação com as energias cósmicas da Serra do Roncador e sua missão junto à nova era da humanidade.

“Ana mergulhou num transe profundo, entoando cantos que estavam adormecidos nos redutos mais recônditos de sua mente. Uma mistura de dor e esperança reverberava pela caverna. No céu, a Lua, a Terra e o Sol completamente alinhados davam as boas-vindas ao signo de aquário com o primeiro eclipse total da Lua do novo milênio”. (pág. 103)

Sabe aquela jornada marota de autoconhecimento?

Pois é.



Gostaria de poder dizer que a ideia geral da história – que conjugou referências gnósticas, ocultistas e teosóficas com o conhecimento científico das autoras – funcionou harmonicamente. Realmente gostaria, honrando os dois anos de pesquisa realizados por Ana Beatriz Barbosa Silva (psiquiatra renomada e autora de livros de não-ficção conhecidos, como Mentes Perigosas) e Andréa Duarte (conceituada dermatologista, trabalhando há vinte e três anos no departamento de hansenologia), que expõem temas importantes como doenças neurológicas e hanseníase ao longo do livro. Mas, bem… Horizonte Vertical recai em boa parte dos erros que tornaram o Very Special Episode uma pérola cafona da década de 1980: a intenção é boa. Os meios de execução? Nem tanto.

Nota-se que as autoras se esforçam demais para mostrar serviço. As informações científicas e a pesquisa aprofundada estão todas ali, detalhadas nas descrições e nas falas das personagens, que seguram o leitor pela mão e entregam tudo muito bem mastigadinho, como em um livro didático. A ficção, contudo, é um desses casos em que menos é mais: embora os autores necessitem de um domínio mínimo do que abordam na trama, também não necessitam jogar todo esse conhecimento em quem lê, correndo o risco de engessar a narrativa com explicações desnecessárias que poderiam ser resumidas em poucas linhas.

Esse exagero nas descrições prejudica o livro do início ao fim: há um detalhamento desnecessário nas ações e sentimentos das personagens que, novamente, poderiam se reduzir a poucas linhas de diálogo sem comprometer a compreensão da trama. São explicações e mais explicações repetidas ao longo da trama – como a história de Ana ao sair da aldeia bororo, exaustivamente relembrada na primeira parte da narrativa –, como se as autoras temessem que o leitor não tivesse entendido da primeira vez, e precisassem reiterar o fato novamente. Essa necessidade de reforçar a compreensão impede que o leitor deduza por si mesmo acerca dos personagens através de suas ações. Digo isso porque já recaí (e frequentemente recaio) neste mesmo erro escrevendo ficção: aquele receio de que os leitores não recebam a mensagem adequadamente, detalhando mais que o necessário. Romances, contudo, não são artigos científicos, e Horizonte Vertical deixa pouco para a imaginação, tornando suas personagens excessivamente planas e previsíveis – e mesmo os momentos de redenção dos personagens mais “duvidosos” são irremediavelmente piegas.



O produto de tudo isso é que a mensagem do livro sobre autoconhecimento e reflexão é praticamente escancarada, com personagens principais (geralmente Ana ou Zion, um pretenso par romântico de Sophia na segunda parte da trama) repetindo frases de efeito requentadas para personagens ainda incrédulos sobre a necessidade de fazer o bem, perdoar, dar amor ao próximo, entre tantos clichês empurrados goela abaixo ao longo da leitura, sem sutileza alguma. O que temos aqui não é o ocultismo tratado em suas nuances, mas um reducionismo até grosseiro, encaixando o material de origem em espectros maniqueístas e reduzindo ricos simbolismos a uma mera luta do bem contra o mal. São diálogos e frases soltas plantados gratuitamente, que em nada acrescentam no enredo, senão para sensibilizar a audiência a qualquer custo com palavras piegas que não seriam estranhas em um para-choque de caminhão. Um melodrama que até faria sentido antigamente, em algum episódio especial de Arnold, He-Man ou Punky mas que já não convence em um mundo pós Animaniacs e South Park. Quanto mais evidente estiver a intenção moralizante do autor em uma peça de entretenimento, maior a probabilidade de ser rejeitada. Os leitores não são tolos.

A lição de hoje? Horizonte Vertical traz uma premissa interessante ao tentar ligar ciência e pesquisa ao xamanismo presente na cultura brasileira, entre outros dados como o manuscrito 512 (que, por si só, já servia de mote para uma aventura épica estilo Indiana Jones), mas falha ao colocar a carroça na frente dos bois: desaba sob suas pretensões e puxa exaustivamente uma mensagem moralista para os leitores cujo condão de convencimento só poderia prosperar em algum programa dos anos 1980.


Horizonte Vertical
Autoras: Ana Beatriz Barbosa Silva e Andréa Duarte
Editora: Globo Livros
Ano: 2017
Skoob: 3.5 Estrelas
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01 Estrelas
Horizonte vertical é uma grande viagem pelo universo metafísico dos xamãs e dos portais interdimensionais, onde personagens inesquecíveis desvendarão o que existe por trás de alguns dos grandes mistérios que há séculos povoam o imaginário da humanidade. Fruto de dois anos de pesquisas, Horizonte vertical marca a estreia na ficção da consagrada psiquiatra e autora dos best-sellers Mentes e manias, Mentes depressivas, Mentes perigosas, Mentes consumistas, Bullying e Mentes Inquietas, em parceria com sua colega de faculdade e também escritora Andréa Duarte.
Autoras: Ana Beatriz Barbosa Silva é médica graduada pela UERJ, com residência em psiquiatria pela UFRJ, professora honoris causa pela UniFMU (São Paulo) e diretora da clínica Ana Beatriz Barbosa Silva Comportamento Humano e Psiquiatria (Rio de Janeiro). É autora de diversos livros, entre eles Mentes Perigosas: o psicopata mora ao lado; Mentes Consumistas: do consumismo à compulsão por compras; Bullying: mentes perigosas nas escolas; Mentes inquietas: TDAH, desatenção, hiperatividade e impulsividade; Mentes e manias: TOC – transtorno obsessivo-compulsivo, todos publicados pelo selo Principium, da Globo Livros.

Andréa Duarte é médica graduada pela UERJ, com residência em dermatologia pela UFF e especialista pela Sociedade Brasileira de Dermatologia. É diretora da clínica ADDerma (Rio de Janeiro) e trabalha pelo SUS na Zona Oeste da capital fluminense e no município de São Gonçalo, onde atua há vinte e três anos no departamento de hansenologia. Há cinco anos contribui com publicações regulares para o site de escritores Recanto das Letras. Em 2015, fez parte da turnê do cantor e compositor Luciano Bahia com a performance poética autoral Melhor de Mim.

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