Resenha: Fera - Brie Spangler

junho 08, 2017 / Redação SOODA /

Esse livro não é uma releitura da Bela e a Fera, mas nem por isso deixa de ser um Conto de Fadas, daqueles que podem virar um emocionante filme da Disney, com uma personagem trans




Nascer biologicamente num corpo masculino ou feminino parece fácil, afinal de contas a natureza determinou, porém o que acontece quando o ser humano cresce e percebe que na verdade aquele sexo de nascimento não é o seu, e não estou falando de atração sexual, mas de sentimento psicologicamente arraigado. O que fazer? Escolher ser feliz para sempre e assumir a uma identidade diferente do sexo o qual nasceu e está disposto a enfrentar uma sociedade que ainda não compreende essa circunstância, ou esconder essa identidade que impera na alma e se tornar uma pessoa infeliz e incompleta até o fim de sua vida?

Esse é um dilema que milhões de transgêneros enfrentam em todo o mundo, tendo em vista que de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), algo em torno de 2% a 5% de seres humanos se identificam com um sexo diferente o de seu nascimento. E uma dessas personagens reais é retratada na pele de Jamie no livro "Fera" da autora Brie Spangler. Ela é uma jovem garota de 15 anos que nasceu menino, mas ao se identificar como menina sofrerá as consequências dessas mudanças. E são nessas circunstâncias que a conhecemos: na visão de Dylan, a "Fera".

A história inicia-se depois que Dylan, um garoto de quase 2 metros de altura e peludo (estilo Tony Ramos) cai do telhado de sua casa e em uma consulta com um ortopedista, o profissional recomenda que ele frequente um grupo de pessoas que possuem problemas de aceitação. Lá ele conhece uma jovem, especialmente bonita e aparentemente alegre, a Jamie. Porém, no momento no qual ela se propõe a falar, Dylan está voando em seus pensamentos e não percebe que ela afirma ser transgênero, e ao ser perguntado pela coordenadora do grupo, ele simplesmente diz que não há problema (Só o fato que ele não escutou nada do que Jamie disse).

Depois da reunião, eles se aproximam se tornando bastante amigos, e logo ele sente uma forte atração por Jamie. A questão é que quando ele a apresenta ao seu melhor amigo "JP", o jovem se atenta para o fato de que ela é transgênero. Então o pequeno conto de fadas entre os dois vai por água abaixo.



COMPREENDENDO OS TRANSGÊNEROS

"Fera" é mais que uma história de aceitação é de compreensão, visto que poucas pessoas entendem o significado de ser um transgênero, ou homosexual, ou ainda, travesti. Uma pessoa trans se identifica com o sexo diferente do nascimento, diferente de orientação sexual, no qual tem haver com atração sexual, e que também é diferente de ser travesti (ato de se travesti do sexo oposto). As três formas se culminam em alguns momentos, sim, porém cada caso deve ser analisado de forma diferente. Porém, a sociedade está incrustada de esteriótipos, e eles gritam na cara de Dylan todo o tempo.

O primeiro preconceito são os dos amigos, que com exceção de "JP", os outros jovens são bem escrotos (o que não significa que JP não seja, mas não em relação a pessoa trans e sim sobre outros aspectos). Então esses jovens usam termos como traveco, ou homem de saia, entre outros somado com uma boa dose de ameaças que podem em algum momento, se tornaren reais (afinal, só no Brasil foram 600 transgêneros mortos em 6 anos, as quais foram causadas apenas pela condição de ser um trans, desconsiderando outros tipos de assassinatos que já caem nas estatísticas do dia-a-dia).



O outro preconceito veio do seio familiar, a mãe de Dylan, queria de todas as formas afastar o seu filho de Jamie, por motivações notadamente protecionista, o que é um problema, pois com ou sem Jamie, o jovem garoto é cheio de neuras e preocupações, e não é andar com Jamie que isso seria pior e a matriarca da família não consegue ver isso.

Aliás, a própria mãe de Jamie usa medidas drásticas sobre sua filha, tem medo de que ela se torne prostituta, o que é compreensível, visto que a falta de empregos levam 90% dessas jovens para esse caminho, pelo menos aqui no Brasil, de acordo com dados da Associação Nacional de Travestis e Transexuais. Porém é importante atentar para o fato que essa escolha é realizada pelas jovens pela quase total falta de compromisso da sociedade para com essas jovens, os empregos são quase inexistente para esse grupo social que acaba vivendo marginalizado em nosso sistema. Além desse medo, a mãe de Jamie vive em constante pavor, visto a possibilidade de que a jovem sofra algum atentado na rua.

Vale dizer que a obra não retrata somente a questão de bullying sobre a pessoa trans, outros problemas também aparecem no livro impactando na vida de vários personagens. Dylan também é diferente e os esteriótipos sobre ele também gritam. JP tem problemas em casa, que acaba o tornando bem mais frio, do que ele deveria ser, por vezes muito escroto. A mãe de Dylan ainda sofre bastante em alguns aspectos. Enfim, problemas que são compreensíveis, mas que nem sempre justificando alguns comportamentos.



Aos poucos, conforme vamos aprendendo com o Dylan, chega a hora de criar empatia. Esse é um segundo trabalho que também é demorado e depende da sensibilidade de cada ser humano de se colocar no lugar do outro e perceber que as pessoas desejam ser apenas felizes. Assim, como Jamie, Dylan, JP e qualquer outro homem ou mulher, seja cis, ou trans.

Ao final do livro, acredito que o sentimento de empatia com a pessoa trans tenha sido transpassado a muita gente, especialmente ao tipo de preconceito que se realiza pela falta do conhecimento (o de ódio é outra questão a ser discutida).

Agora é buscar obras, as quais uma pessoa trans escreveu, como "Apenas uma Garota" que será lançado em breve pela Editora Intrínseca. Onde o ponto de vista, não vai ser de um agente que participa da vida de uma pessoa trans, mas sim daquela que sofre diariamente com a questão.

No mais, considero "Fera" uma grande introdução do jovem ao universo trans que agora terá uma responsabilidade de continuar nele e assim respeitar a pessoa por quem ela é, independente se for Cis ou Trans. É importante permitir que as pessoas sejam felizes. Nesse aspecto, acredito que a autora acertou em cheio.

Observação: Essa resenha foi escrita por um homem cis gay, ou seja por um agente que apoia a causa, mas não vivencia a vida de uma pessoa trans. Para conhecer a resenha de uma pessoa Trans, confira a resenha do vlog Saga Maniacos.


FERA (BEAST)
Brie Spangler
Editora: Seguinte (Companhia das Letras)
Ano: 2017
Skoob: 3,9 Estrelas / Goodreads: 3,6 Estrelas
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04 Estrelas
Dylan não é como a maior parte dos garotos de quinze anos. Ele é corpulento, tem quase dois metros de altura e tantos pelos no corpo que acabou ganhando o apelido de Fera na escola. Quando ele conhece Jamie, em uma sessão de terapia em grupo para adolescentes, se apaixona quase instantaneamente. Ela é linda, engraçada, inteligente e, ao contrário de todas as pessoas de sua idade, parece não se importar nem um pouco com a aparência dele. O que Dylan não sabe de início, porém, é que Jamie também não é como a maioria das garotas de quinze anos - ela é transgênera, ou seja, se identifica com o gênero feminino, mas foi designada com o sexo masculino ao nascer. Agora Dylan vai ter que decidir entre esconder seus sentimentos por medo do que os outros podem pensar ou enfrentar seus preconceitos e seguir seu coração.
Autora: Brie Spangler é autora e ilustradora de histórias infantis, Fera é o seu primeiro livro voltado para o público YA.

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