O LGBTQ+ na Literatura de Terror/Horror

junho 15, 2017 / Rafael Lutty /

Contos e romances para fazer você roer as unhas e perder a noite de sono



(Foto: Penny-dreadful.wikia.com)

Desde a segunda metade do séc. XVIII, especificamente, em 1764 com a publicação de O Castelo de Otranto de Horace Walpole considerado o primeiro livro de terror da história, misturando elementos do sobrenatural e fatos inexplicáveis, a literatura de terror vem ganhando cada vez mais espaço e atualmente emplaca entre um dos gêneros mais procurados nas livrarias.

Confesso que escrever sobre personagens LGBTQ+ na literatura de terror/horror se mostrou um desafio considerável. Não que seja escasso encontrar representantes da bandeira do arco-íris nos livros de terror, o problema é que a maioria é apenas mais um na contagem de corpos, por isso me senti desconfortável em trazer apenas exemplos de vítimas do assassino (seja ele deste mundo ou não).

Iniciou-se então a pesquisa pela estante – e pela memória – para encontrar exemplos de personagens que tivessem maior relevância para a trama, na humilde (porém não tão curta) lista de livros e contos de terror que eu já li. E temos uma lista com personagens LGBTQ+ em destaque em contos e romances de grandes nomes da literatura de terror mundial.

01. Nas colinas, As cidades (Livros de Sangue 1 – Clive Barker)
E vamos abrir a lista com um dos grandes nomes da literatura de horror atualmente: Clive Barker. Autor de livros como Hellraiser e Evangelho de Sangue, Barker se tornou conhecido com sua série de livros de contos intitulada Os Livros de Sangue, com seis volumes, lançados pela editora Record no Brasil, na década de 80.

No primeiro volume dos Livros de Sangue, temos o conto Nas Colinas, As Cidades, que narra a viagem de Judd e Mick pela Iugoslávia, um casal sem muita compatibilidade que acaba sendo espectador de uma batalha épica entre duas cidades. Seria uma história simples, não fosse pelo fato de que os habitantes de cada cidade literalmente unem seus corpos e se transformam em dois gigantes que são descritos de uma forma que faz você perder sua tão esperada noite de sono tranquilo.

“— Como gigantes — disse ele. — Lutam como gigantes. Eles fazem um corpo com seus corpos, compreendem? A estrutura, os músculos, o osso, os olhos, nariz, dentes, tudo feito de homens e mulheres.”

O que é interessante neste conto de horror, é que não temos um casal homossexual apenas como vítima de algo, é um casal tão normal quanto qualquer outro com seus problemas e momentos de prazer, tendo seu cotidiano abalado por uma situação inexplicável. Clive Barker, que é assumidamente homossexual, consegue construir um dos melhores contos que eu já pude ler e inserir personagens gays de maneira natural em uma narrativa tão grotesca quanto bela.

02. No Maior Aperto (Ao Cair da Noite – Stephen King)
E não poderia faltar o mestre do terror Stephen King nesta lista não é mesmo? Em seu livro de contos Ao Cair da Noite, no conto No Maior Aperto, King conta a história de Curtis Johnson, homossexual, milionário e investidor; e Tim Grunwald, seu vizinho e a única pessoa com quem Curtis tinha problemas, ocasionados por um lote de terra no final do bloco em que moravam.

Enquanto Curtis pretende manter o lote do modo como está, uma área arborizada, Grunwald tem pretensões de construir um condomínio no lugar. Mas uma briga de vizinhos, nunca é apenas uma briga de vizinhos quando estamos falando da mente sombria de Stephen King, por isso Grunwald decide se livrar de Curtis montando uma armadilha de tirar o fôlego (literalmente).

Aqui temos um personagem homossexual bem-sucedido, que é hostilizado por seu vizinho homofóbico e psicótico, mas o principal no conto é o fato de que a homossexualidade de Curtis não é o ponto de destaque na história, ou o que desencadeia o clímax; os eventos que se seguem são impulsionados por outras questões. Isso naturaliza a sexualidade do personagem.

03. O Retrato de Dorian Gray (Oscar Wilde)
O romance que viraria um dos grandes clássicos do século XIX, foi publicado incialmente de maneira periódica em 1890, período vitoriano. No livro, acompanhamos a história de um jovem belo, que tem seu corpo inteiro retratado em óleo sobre tela pelo artista Basil Hallward, que tem em Dorian sua maior devoção. Por meio de Basil, Dorian conhece Lord Henry Wotton por quem se encanta e passa a ter uma vida entregue a devassidão e ao hedonismo. O tempo passa e todos são atingidos pelas marcas da idade, exceto Dorian que se mantém belo e jovem, um segredo que encontra sua revelação no próprio retrato.

Embora Oscar Wilde coloque a admiração de Basil por Dorian de modo velado na narrativa, fica implícito no texto que o artista é apaixonado pelo jovem.

“[...]. Fale mais sobre Dorian Gray. Você o vê muito frequentemente?”
“Todos os dias. Eu não poderia ser feliz se não o pudesse ver todos os dias. Claro que às vezes só por alguns minutos. Mas poucos minutos com uma pessoa que alguém cultua é muita coisa.”

O livro foi muito polêmico na Inglaterra Vitoriana, por trazer um protagonista que transita normalmente entre as reuniões da alta sociedade inglesa mesmo depois de ter cometido crimes e assassinatos. Vale ressaltar que a homossexualidade era crime na Inglaterra de 1890, e mesmo que as relações entre os personagens do mesmo sexo não estejam explícitas na história, não foi difícil para os críticos literários da época, habituados ao moralismo característico da Grã-Bretanha vitoriana, declarassem seu desgosto com a obra, o que fez com que a aceitação do livro fosse baixíssima em sua época.

Em edições posteriores a de 1890, Oscar Wilde fez diversas alterações no romance original, obscurecendo os temas homoeróticos do texto, muito por conta da pressão social que recebeu. Atualmente, com status de um dos grandes clássicos do século XIX, em sua época O Retrato de Dorian Gray foi a obra de um escritor transgressor e polêmico.

“É bem verdade que o cultuei com muito mais romances de sentimentos do que um homem geralmente dá a seu amigo. De alguma forma, nunca amei uma mulher. Suponho que nunca tivesse tempo. Talvez, como Henry diz, uma verdadeira grand passion é o privilégio daqueles que nada têm a fazer e é o costume das classes ociosas em um país. Bem, desde o momento em que o conheci, sua personalidade teve a mais extraordinária influência sobre mim. Eu bem que admito que o adorei loucamente, extravagantemente, absurdamente. Eu tinha ciúmes de qualquer um com quem você falava. Queria você inteiro para mim. Eu só ficava feliz quando estava com você. Quando estava longe, ainda havia você presente em minha arte. Tudo era erro e tolice. Tudo ainda é erro e tolice. Claro que nunca deixei que você soubesse nada disso. Teria sido impossível. Você não entenderia; nem mesmo eu entenderia. Um dia, decidi pintar um maravilhoso retrato seu. Deveria ser minha obra-prima. É minha obra-prima. Mas, à medida que eu trabalhava nele, cada partícula e película de cor me parecia revelar meu segredo. Fiquei cada vez mais temeroso de que o mundo soubesse do meu segredo. Senti, Dorian, que eu tinha falado demais.” (Basil Hallward)

04. Bolero de Sangue (Pesadelos Infaustos – Breno Torres)
E é claro que teríamos um exemplar nacional nesta lista. Pesadelos Infaustos é uma coletânea de contos de terror/horror do paraense Breno Torres, que traz forte representatividade LGBTQ+ em praticamente todos os contos. Aqui darei destaque para o conto Bolero de Sangue, em que temos uma história de vampiro, com fortes influências da literatura do início do século XX como O Médico e o Monstro de Robert Louis Stevenson, sem descartar a originalidade.

A história acompanha Upir, um vampiro amaldiçoado séculos atrás por uma bruxa na Islândia, que desligado de seu corpo físico vê-se fadado a parasitar em corpos humanos e possuí-los por completo. O conto se inicia com Upir tornando-se o dono do corpo do jovem Christopher Nicholls e aprontando-se para sua caça na noite londrina. Segundo o próprio autor, Upir foi imaginado como pansexual, a pansexualidade é atração amorosa entre pessoas independente do sexo ou identidade de gênero. Como toda boa história de vampiros, o conto é recheado de sexualidade e tem seu desfecho em um quarto com o vampiro e o italiano Enzo.

Entre os contos do livro, existem outros que trazem casais lésbicos e homossexuais, mas eu não vou dissertar sobre eles aqui, pois o livro será resenhado em breve. O que precisa ser parabenizado aqui, é a bandeira de representatividade que o autor levanta em toda a obra:

“Uma das minhas grandes motivações é fazer parte disso. Representar, levantar a bandeira com orgulho, ou com veia crítica, de todas as formas. É um ponto muito importante na minha concepção artística.” (Breno Torres)

Outros livros como A Menina Submersa (Caitlín R. Kiernan, que inclusive é trans), Jantar Secreto (Raphael Montes), Horror Adentro (Oscar Nestarez), A Fazenda (Tom Rob Smith), entre outros, trazem personagens LGBTQ+ em destaque nas suas tramas, mas eu procurei me ater apenas aos contos e livros que eu li, o que acabou não sendo uma lista extensa.

Mais de 80% da minha estante é composta por livros de terror/horror e suspense e menos de 10% destes livros possuem personagens LGBTQ+ em suas tramas, não apenas como um figurante a ser citado. E eu não possuo uma estante composta por clássicos, a maioria são publicações do início do século XXI. Embora tenhamos muitos exemplos ótimos de autores que têm levantado a bandeira do arco-íris em suas obras, a literatura de terror ainda carece muito da representatividade.

De todos os personagens que eu consegui destacar, com relevância, nas obras em que li (e nas que pesquisei), praticamente todos são representados por homossexuais. Isso não é bom? É! Porém estamos apenas no ‘G’ da sigla, e isso é algo que não está restrito apenas aos livros de terror.

Fica aqui meu pedido para que você comente outros livros de terror com personagens LGBTQ+ representados de forma relevante na trama, e meu compromisso em continuar pesquisando e lendo, vamos fazer esta lista crescer.

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