Lista: LGBTQ+ na Fantasia

junho 13, 2017 / Yuri Lima /

Eu gosto de me sentir representado, e você?




Para mim é mais fácil, eu sou homem cis hétero opressor do mal, qualquer filme, desenho, livro, outdoor e cartela das Lojas Americanas me representa. Infelizmente, não posso dizer o mesmo sobre meus amigos LGBTQ+.

Mas, felizmente, isso vem mudando gradativamente. Cada vez mais obras vêm integrando em suas fileiras personagens que pertencem a esse grupo de maneira natural, assim como isso vem acontecendo em nossas vidas. Melhor ainda, essas obras não relegam a esses personagens apenas papéis secundários, degradantes ou caricatos. Uma pena a realidade não imitar a ficção nisso.

Nesse mês da visibilidade LGBTQ+, venho apresentar para vocês as obras de fantasia com personagens desse grupo, de As Crônicas de Gelo e Fogo a Mistborn. E não pensem que temos apenas personagens secundários, temos obras inteiras lideradas por personagens LGBTQ+. Então segure a minha mão e venha comigo nessa viagem pelo arco-íris!

As Crônicas de Gelo e Fogo - George Martin
A série não tem somente um personagem LGBTQ+, tem vários e possivelmente mais estão por vir, afinal temos uma população inteira, naquele mundo, que trata de maneira completamente normal e igualitária qualquer orientação sexual e gênero: Dorne.

Essa comunidade fica na região mais ao sul de Westeros e, particularmente é a minha preferida. Separada do resto do continente por desertos e cadeias montanhosas, foi o único dos sete reinos que não se curvou aos Targaryen (pelo menos não à força) e muito menos à Porto Real. Temos, nessa localidade, alguns personagens LGBTQ+ como, Oberyn Martell e Ellaria Sand, um casal e ambos bissexuais, além de sua filha, Nymeria Sand, também bissexual. Também existe as gêmeas Fowler, caso amoroso de Nymeria.

Essa diversidade em Dorne não impede de existir personagens desse grupo de outros lugares, como o casal extremamente apaixonado Sor Loras Tyrell e Renly Baratheon e Asha Greyjoy, nossa representante lésbica do grupo, além de Doces, escravo de Yunkai dos países livres, personagem intersexual.

Os livros são bem sutis em relação a isso e Martin explicou em uma entrevista que seria porque os personagens que narram os capítulos não são LGBTQ+, coisa que a série da HBO colocou várias vezes.

As Crônicas do Matador do Rei - Patrick Rothfuss
Em "O Nome do Vento", primeiro livro da série das Crônicas do Matador do Rei, os dois donos da taverna mais famosa da cidade de Imre, O Eólio, dizem ser homossexuais e vivem juntos e nada mais acontece. Nenhum argumento sobre como essas pessoas devem se portar ou como isso é visto... e isso é lindo. Existe apenas a informação de que eles estão vivendo juntos, assim como acontece entre vários casais heterossexuais, é só, a história segue normalmente e nenhum personagem os trata ou pensa diferente por isso. Como deveria ser na “vida real”.

DiscWorld - Terry Pratchett
Terry Pratchett criou um mundo vasto e que aborda inúmeras questões sociais, na maioria das vezes satirizando-as, curiosamente nunca abordando as questões sexuais ou de gênero. Pelo menos é o que parece para um leitor incauto, até ele se deparar com os anões de Discworld. Em “O Quinto Elemento”, um dos livros da série, um personagem pergunta a sua esposa sobre uma ópera de anões e ela explica que era uma grandiosa história de amor entre dois amantes:

“Amantes? Mas quem é o....?”
“Ambos são ANÕES!”


Explico. Os anões de Discworld todos tem barba, enchem a cara de cerveja e são guerreiros baixinhos de machado e armadura. Todos eles são tratados como “anões”, mas claramente existem distinções de gênero que só é discutida em quatro paredes. Daí você avalia a combinação que conseguir. Além disso, no livro “Pé de Barro” Pratchett mostra a primeira Anã assumidamente mulher que detesta encher a cara e passa a se vestir diferente das demais, começando uma “moda” e enfrentando preconceitos dentro de seu próprio povo e fora dele, problemas que muitas mulheres trans enfrentam hoje em dia.

The Way of Kings - Brandon Sanderson
Apesar de ainda não ter chegado ao Brasil, a série The Stormlight Archive é uma das mais aguardadas pelos fãs do autor Brandon Sanderson, especialmente, depois de sucessos como a série Mistborn e o romance Elantris. Então, os fãs do autor estão ávidos por mais Cosmere. E no primeiro livro da série somos apresentados à Drehy, um jovem loiro, musculoso e de membros longos, e a única informação que dispomos a respeito de sua sexualidade é uma declaração do autor dizendo que ele é gay e que foi baseado em um amigo pessoal dele, que é também gay.

E aí entramos em uma área delicada, pois o autor é Mórmon e em 2007 ele publicou uma postagem em seu site (que você pode conferir na íntegra, em inglês, aqui) onde ele defendia, de uma maneira considerada ofensiva por alguns, a escolha de Dumbledore como um personagem gay. Agora, os livros de Sanderson são notórios por sua falta de romance e poucos relacionamentos apresentados, então a sexualidade de um personagem tem tanta relevância quanto a cor de seus olhos para a história, que creio ser o mesmo caso de Dumbledore.

Fica a seu critério achar isso bom ou ruim. Lembrando que nem todo autor tem habilidade de inserir um personagem LGBTQ+ como protagonista sem caricaturá-lo ou inferiorizá-lo, às vezes é mais sábio trabalhar com o que se conhece e seguir como o ET Bilu: buscando conhecimento.

A Roda do Tempo - Robert Jordan
Aqui nós temos LGBTQ+ pra todo o lado. Existe até um termo pras lésbicas do mundo. Elas são chamadas de “Amigas de travesseiro” e casualmente um ou outro personagem é dito como “preferir homens a mulheres”. Claro que tudo é muito sutil e as lésbicas são tratadas como uma “fase” que certas meninas passam (mas que algumas continuam na vida adulta), mas pra um senhor de quase 60 anos, o autor Robert Jordan tratou o assunto da melhor maneira que conseguiu e deixou tudo como algo casual que não é grande coisa naquele universo.O que, assim como em O Nome do Vento, eu acho lindo.

The Tawny Man Trilogy - Robin Hobb
Robin Hobb, autora da trilogia do assassino, tem inúmeras outras séries ambientadas naquele mesmo universo. O que vem a seguir pode ser um grande spoiler da série, mas acho muito digno de nota. Em uma das séries o/a protagonista que dá, de certa forma, nome aos livros é gender fluid. The Fool na verdade é um(a) personagem recorrente de vários livros (inclusive na Trilogia do Assassino) e em uns ele/ela é tratado como homem e em outros, como mulher. E, meus amigos, são nove livros pra chegar a um evento FANTABULINDO. E depois tem mais livros que seguem a história e... ah, o que estão esperando pra ler?

O Livro Malazano dos Caídos - Steven Erikson
E o que falar da minha série mais fantabulinda de todos os tempos? Eu afirmo categoricamente que não existe preconceito de nenhum tipo, muito menos de orientação sexual nesse livro. Existe grande diversidade em diversos personagens importantes que são gays ou lésbicas. Duas das soldadas mais badass da série são lésbicas e perdidamente apaixonadas uma pela outra, enquanto um dos guerreiros mais incríveis que você terá o prazer de conhecer é abertamente gay. Não existe espaço para preconceitos, os personagens estão ocupados demais derrubando impérios e matando dragões para se preocupar com esse tipo de coisa.

The Last Herald-Mage Trilogy - Mercedes Lackey
E chegamos aos protagonistas. Vanyel Ashkevron é uma figura trágica com uma forte bússola moral, ele é aclamado por toda Valdemar (mundo onde se passa a história) como o maior Herald-Mage na história. Como o nome da trilogia sugere, ele é o último Herald-Mage de seu tempo e permanece assim por mais de 500 anos. E ele é abertamente gay. E aqui nós temos o protagonismo: Vanyel, que ama música e sonhava em ser bardo, foi um garoto emocionalmente negligenciado por seu pai homofóbico que tentava fazê-lo “virar homem”, ele vai morar com sua tia e se apaixona pelo protegido dela, o que tem muita importância pra história e pro seu legado como Herald-Mage.

Vanyel é um personagem real que sofre bastante por ser quem é. E apesar dos realcionamentos homoafetivos no livro serem um tanto... femininos, por falta de palavra melhor, a autora, uma mulher heterosexual, entre erros e acertos em um livro de 1989 fez um ótimo trabalho.

The Traitor Baru Cormorant - Seth Dickinson
Baru é a protagonista desse romance standalone (mas que parece que terá uma sequência) criada na pequena vila pesqueira de Taranoke. Uma vila em que a sexualidade sempre foi uma coisa fluida, com casamentos poliafetivos onde as crianças normalmente tinham vários pais e mães.

Entretanto a vila foi gradativamente conquistada por um império que faz controle de genético através de fertilização seletiva e pune severamente a homossexualidade.

Baru se infiltra como estudante na escola desse império para vingar sua família e destruir o império de dentro. Baru vive com o terror que sua própria sexualidade possa ser exposta e pretende fazer o que for preciso para atingir seus objetivos.

Ela é brilhante, uma heroína, e também uma vilã, uma tirana, o diabo em carne e osso. Esse é um livro denso e difícil e a protagonista não é unidimensional. Comparo muito ele com a Trilogia dos Espinhos, onde Baru se parece muito com Jorn fazendo o que for preciso pra alcançar seus objetivos.

Eu realmente espero que vocês possam dar uma chance a esses livros. Todos eles são histórias espetaculares, e a inclusão e representatividade só aumentam a grandiosidade dessas obras. Infelizmente algumas delas ainda não foram lançadas no Brasil, mas se a gente fizer coro e comprar e pedir, quem sabe, as editoras consigam trazer cada vez mais obras como essas.

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