Resenha: A Menina Submersa - Memórias - Caitlín R. Kiernan

março 22, 2016 / Redação SOODA /

Um livro instigante que vai botar em questão até que ponto você poderá acreditar nas palavras de IMP, nossa protagonista






Quero começar essa resenha dizendo que esse é um livro bem difícil de resenhar. Não sei bem o que eu esperava com essa leitura, mas posso afirmar que fui pega de surpresa e não sei se vou ser capaz de escrever bem o que esse livro passa, mas certamente irei tentar.



Então temos aqui uma narrativa que é feita quase em uma espécie de diário ou relatório, é como se fosse um livro dentro de um livro. Mas vamos pelo começo. India Morgan Phelps, ou simplesmente Imp, como prefere ser chamada, é uma jovem de 20 e poucos anos e que foi diagnosticada com um quadro de esquizofrenia e decide contar a sua “história de fantasmas” através desse livro, portanto desde o início da narrativa ela nos alerta de que nem todos os fatos narrados serão verdadeiros, não que seja a sua intenção nos enganar, uma vez que ela procura de fato ser o mais verdadeira possível, porém devido a doença que possui muitas vezes tem dificuldade em discernir o que é real e o que é fruto da sua imaginação.

“Digo coisas que não são verdade porque preciso que sejam verdade.” (p. 146)

Imp nos relata algumas ocorrências sobre sua infância e adolescência. Ela cogita ser alvo do que ela nomeou de “Maldição da Família Phelps”, pois sua mãe Rosemary Anne e sua avó Caroline também possuíam alguma espécie de distúrbio mental e ambas acabaram cometendo suicídio. Sendo assim, ela vive sozinha e é independente, trabalha como caixa em loja de materiais de arte, nas horas vagas ela trabalha como pintora e escreve contos, porém é totalmente ciente do distúrbio que possui, ela não tenta fingir que é “normal”, ela procura ter uma relação no mínimo equilibrada com a doença, e tem o acompanhamento de uma psiquiatra e precisa tomar uma variedade de medicamentos que a ajudam a se manter lúcida. E a cada página Imp vai nos relatando a sua vida, através de uma escrita que não é bem linear, por vezes incoerente e duvidosa, ela não possui uma narrativa que siga de fato uma ordem cronológica definida, os eventos se misturam e se confundem, e é um tanto desesperador ter essa amostra de como as ideias se desenrolam em sua mente.



Imp é assombrada por uma lembrança de um quadro que viu quando ainda era criança no dia do seu aniversário em uma visita a um museu com sua mãe, o quadro A Menina Submersa de Philip George Saltonstall, a marcou de forma que mesmo após tantos anos ela não pode esquecer. Então ela narra algumas curiosidades que descobriu sobre o quadro e o seu criador e também sobre o que o teria inspirado a pintar aquele quadro, quem seria a menina e se teria alguma história não contada sobre o que aconteceu. Aqui nos é apresentado uma série de reportagens, matérias, recortes e pesquisas que Imp realizou sobre o assunto, esse é um dos fantasmas que assombram a sua vida, além de sua mãe e de sua avó, o modo como todos esses fatos estão de alguma forma interligados e influenciam a sua própria história.



Fantasmas são essas lembranças fortes demais para serem esquecidas, ecoando ao longo dos anos e se recusando a serem apagadas pelo tempo” (p. 23)

Caitlín soube tratar da questão de gênero das personagens de maneira natural, sem ser forçada ou criando uma grande comoção sobre o tema. Imp é lésbica e tem uma namorada que se chama Abalyn Armitage, que é transexual, o relacionamento das duas é trato de forma simples, sem ser um romance meloso, não vi nada muito grandioso no modo como ele se desenvolve, apesar de todo o trauma que ambas carregam é como se uma fosse o apoio da outra, mesmo que em alguns momentos elas se desentendam e tenham personalidades bem diferentes uma da outra.

“Eu poderia passar o resto da vida negando, sempre evitando o que me deixa pouco à vontade por medo de despertar pensamentos incômodos, perturbadores, assustadores. Eu poderia fazer isso, certo?” (p. 75)

O ponto principal no decorrer da narrativa é a introdução de uma nova personagem, Eva Canning, Imp não sabe realmente como de fato ocorreu esse encontro, como Eva virou sua vida de pernas pro ar, é a partir daí que a história pode ficar realmente confusa, nos perdendo em alguns momentos. Imp estava dirigindo quando encontrou Eva parada, nua e molhada no meio da noite em uma estrada deserta, ela não sabia bem o que fazer então decidiu lhe oferecer uma carona, roupas e a levou para sua casa, o que causou grande desentendimento entre ela e Abalyn.



É difícil descrever o que acontece após Eva, tudo começa a ruir, Imp começa a ter diversas crises, é como se Eva a tivesse envenenado. Ela se torna uma obsessão, ela está presente nos pensamento de Imp, está impregnada nela. Nesse ponto da narrativa tudo se torna bagunçado, Imp escreve durante suas crises e é difícil distinguir a verdade, uma vez que a própria Imp tem dificuldades de separar as coisas. Esse é o fantasma que mais a assombra. É uma narrativa que envolve presente, futuro e passado.



“Ninguém nunca dissera que você tinha de estar morto e enterrado para ser um fantasma. Ou, se alguém disse, estava errado. As pessoas que acreditavam nisso provavelmente nunca foram assombradas. Ou somente tiveram uma experiência muito limitada com fantasmas, por isso simplesmente não sabem de nada.” (p. 43)

A Menina Submersa é um livro que não tem uma leitura fácil, porém é instigante, te faz ter vontade de continuar lendo para que em algum momento tudo faça sentido, os pensamentos complexos de Imp nos deixa em alguns momentos bem atordoados. Não diria que é de fato um livro de terror, apesar de tratar de fantasmas e tantos seres míticos, diria que está mais para um thriller psicológico, em alguns momentos ele é assustador, perturbador, e me deixou bem impressionada. Apesar de toda a confusão acredito que a autora soube construir bem a história, imagino como deve ter sido trabalhoso o trabalho nesse livro. Não sei se fui capaz de passar um relato coerente, mas digo que esse é livro que não pode passar despercebido, se tiver a oportunidade leia o mais breve possível.



“Gente morta, ideias mortas e supostamente momentos mortos nunca estão mortos de verdade e eles moldam cada momento de nossas vidas. Nós os ignoramos e isso os torna poderosos.” (p. 116)



Ah, é claro, não tem como passar batida essa edição limitada incrível da Dark Side, que sempre tem um trabalho gráfico impecável, com as folhas na cor rosa na lateral e vários detalhes que dão um acabamento final maravilhoso, que nos deixa babando. E você vai ter a chance de levar um desse para casa, participando do evento que será realizado pelo blog em parceria com a editora.

A Menina Submersa (The Drowning Girl)
Autora: Caitlín R. Kiernan
Editora: DarkSide® Books
Ano: 2015
Skoob: 3,8 Estrelas / Goodreads: 3,75 Estrelas
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04 Estrelas
'A Menina Submersa - Memórias' é um verdadeiro conto de fadas, uma história de fantasmas habitada por sereias e licantropos. Mas antes de tudo uma grande história de amor construída como um quebra-cabeça pós-moderno, uma viagem através do labirinto de uma crescente doença mental. Um romance repleto de camadas, mitos e mistério, beleza e horror, em um fluxo de arquétipos que desafiam a primazia do 'real' sobre o 'verdadeiro' e resultam em uma das mais poderosas fantasias dark dos últimos anos. Considerado uma 'obra-prima do terror' da nova geração, o romance é repleto de elementos de realismo mágico e foi indicado a mais de cinco prêmios de literatura fantástica, e vencedor do importante Bram Stoker Awards 2013. A autora se aproxima de grandes nomes como Edgar Allan Poe e HP Lovecraft, que enxergaram o terror em um universo simples e trivial - na rua ao lado ou nas plácidas águas escuras do rio que passa perto de casa -, e sabem que o medo real nos habita. O romance evoca também as obras de Lewis Carrol, Emily Dickinson e a Ofélia, de Hamlet, clássica peça de Shakespeare, além de referências diretas a artistas mulheres que deram um fim trágico à sua existência, como a escritora Virginia Woolf.
Autora: Caitlín R. Kiernan (1964) é autora de livros de ficção científica e fantasia dark, e paleontóloga. Escreveu dez romances, dezenas de histórias em quadrinhos e mais de 200 contos e novelas. Entre seus trabalhos, destacam-se os romances Silk (1998), Threshold (2001), ambos vencedores do International Horror Guild Award, e The Red Tree (2009); a série em quadrinhos The Dreaming, spin-off de Sandman, de Neil Gaiman, com quem também escreveu a novelização de Beowulf (2007). A Menina Submersa: Memórias conquistou os Prêmios Bram Stoker e James Tiptree, Jr., este dedicado a obras de ficção científica ou de fantasia que expandem e exploram a compreensão de gênero.

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